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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Sábato leitor de Borges ou A literatura entre o Jogo e a Vida - parte II


Sábato continua no equívoco monumental da ligar Borges, um literato, como os sofistas. Sofisma é um conceito filosófico, não artístico. Segue: “Para ele, neste momento, a filosofia não pode se propor à verdade (em outro, mais sério, mais culpado, dirá o contrário), e tudo é confundível”.

Segue: “Assim, esse autor que diz na filosofia só busca suas encantadoras possibilidades literárias e que, com efeito, as aproveita para seus relatos, em outro lugar, reconhece que ‘a história da filosofia não é um jogo vão de distrações, nem de jogos verbais’. O autor que põe o engenho como atributo mais alto da literatura, e que faz de um argumento engenhoso a base (e até a essência) de muitos de seus contos exemplares, nos diz em outro lugar (...) que a literatura como jogo formal é inferior à literatura de homens como Cervantes ou Dante, que jamais a exerceram desse modo”.

Borges não foi um idiota e sabia perfeitamente que “a história da filosofia não é um jogo vão de distrações, nem de jogos verbais”. O que não invalida a tese que defendo aqui: a Filosofia também é um jogo verbal, o que, portanto, não quer dizer que seja só isso. Lembremos que a Filosofia é a “mãe” do conhecimento ocidental (e, talvez, mundial) e não tem “ramificações”. Ou seja, a Filosofia pode abarcar as demais áreas do conhecimento, como são a própria Arte e Ciência. O contrário, no entanto, não é necessariamente verdadeiro (e eu duvido que o seja). Além disso, Sábato compara Borges com Cervantes e Dante. Essa é uma comparação “justa”? E, para além disso, Quixote não tem algo de lúdico?

O “jogo”, segundo Sábato, posterga, mas não aniquila nossas angústias. E as angústias de Borges reapareceriam no culto de autores “que não são de forma alguma o paradigma de sua estética, nem de sua ética literária: Whitman, Mark Twain, Goethe, Dante, Cervantes, Leon Bloy e até Pascal”.

E essa culto de Borges, no entanto, é ambíguo, pois sua “paixão verbal” falaria mais alto, de tal modo que: “(...) do vasto Quixote, nos recomendará suas ‘magias parciais’; do áspero Dante, se regozijará em sua complicada e livresca teologia, ou na forma de seu inferno; do complexo Joyce, se deleitará com o inventor de palavras e recursos técnicos, com o erudito e engenhoso; do tremendo Nietzsche reterá a tese (atraente e literária) do eterno retorno; do atormentado e intratável Schopenhauer, sua paixão pelas artes e sua idéia do mundo como resultado da vontade e representação”.

E arremata: “Sob essa ambigüidade, creio perceber o culto secreto pelo que a ele falta: vida e força”.

O incrível é que Sábato precisou desmerecer a obra de Borges para chegar em uma conclusão óbvia. Que Borges teve certa dificuldade de “viver”, qualquer biografia o diz. Se formos benevolentes, e acrescentarmos ao conceito de “viver” o de “pensar”, Borges ganha pontos.

“(...) o Borges que queremos resgatar e que, de fato, é resgatável: o poeta que uma vez cantou coisas humildes e fugazes, mas simplesmente humanas: um crepúsculo de Buenos Aires, um pátio de infância, uma rua no subúrbio. Este é (atrevo-me a profetizar) o Borges que ficará. O Borges que, depois de seu périplo frívolo por filosofias e teologias nas quais não crê, volta para este mundo menos brilhante, mas em que acredita; este mundo em que nascemos, sofremos, amamos e morremos”.

E, por que, resgatar apenas “um” dos Borges? Se, como quer Sábato, há uma certa oposição entre os dois Borges, seria, na minha opinião, injusto resgatar apenas um. No entanto, o que queremos aqui reafirmar, com certa obviedade (que é desculpada pelo esquecimento de algumas pessoas), é que Borges é borgeano. “É confundível, bipolar e enxadrístico”. Não há Jogo sem Vida. Os dois são um, como Borges.


Léo.

Sábato leitor de Borges ou A literatura entre o Jogo e a Vida - parte I


É raro vermos um gigante literário escrever sobre outro. E mais raro ainda quando são da mesma nacionalidade e de períodos semelhantes. A crítica, que criticarei, foi feita por Ernesto Sábato em seu livro O escritor e seus fantasmas e data de 1966, com Jorge Luis Borges ainda vivo. Sabe-se que Borges é o escritor latino-americano mais respeitado mundo a fora – talvez com a companhia agora de Gabriel García Márquez. Borges, como seu desafeto Perón, influencia até hoje a cultura argentina. Como na política há os “peronistas” e “antiperonistas”, na literatura há os “borgeanos” e os “não-borgeanos”. Ernesto Sábato, autor do clássico Sobre heróis e tumbas, é também muito reconhecido, mas menos que Borges. A figura de Borges, de certo modo, relegou a um certo esquecimento (injusto) de alguns outros autores argentinos, como Sabato, Cortázar e Bioy Casares – com quem Borges escreveu livros policiais.


Sábato começa seu ensaio afirmando que o objeto da literatura de Borges é a metafísica. Em suas palavras: “O ânimo lúdico conduz ao ecletismo, tal como se vê neste mesmo fragmento: há várias interpretações, cada uma das quais implica uma filosofia diferente. Ao contrário, em um escritor como Kafka, há sempre uma única e obsessiva metafísica”.

Bom, não penso ser razoável criticar Borges por uma “metafísica plural” e absolver Kafka por uma “metafísica unidimensional”. O argumento do doutor (em Física) Sábato é injusto, e provavelmente sentindo isso, completa: “E porque em Borges abundam possibilidades, resistimos a crer em sua crença”.

Um argumento que não nos diz muita coisa de forma razoável. Várias possibilidades impedem uma crença? Mas essa pluralidade de possibilidades não seria mais sincera do que uma única possibilidade? É uma pena que Sábato não tenha explorado melhor o argumento.

Sábato acusa Borges de se apropriar da Filosofia de forma equivocada, “com puro interesse estético, o que ela possa ter de singular, divertido ou assombroso”. E que, por isso: “(...) seu ecletismo é inevitável. E, por outro lado, insignificante, já que ele não se propõe a verdade. Esse ecletismo é ajudado por seu conhecimento sem rigor, confundindo, conforme as necessidades literárias, o determinismo com o finalismo, o infinito com o indefinido, o subjetivismo com o idealismo, o plano lógico com o plano ontológico”.

“Insignificante”. Ou seja, a Literatura lúdica de Borges é insignificante, a despeito de seu conteúdo cultural, que é gigantesco, por “não se propor a verdade”? Talvez aqui esteja uma possível diferença que Sábato não enxergou: a nem tão simples diferença entre Literatura e Filosofia que, essa sim, significa “amor a verdade”. A Literatura é Arte, e é, portanto, expressão, que pode (e não necessariamente deve, como quer Sábato) ser “verdadeira”.

Sábato segue o caminho de sua crítica, afirmando: “Mas como, por outro lado, quer continuar brincando e não quer participar do sempre duro processo de verdade, toma do intelecto o que tomaria um sofista: não procura a verdade e discute apenas pelo prazer mental da discussão e, sobretudo, faz aquilo de que tanto gosta um literato quanto um sofista: a discussão com palavras, sobre palavras”.



Léo.

(continua)